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Mitos e Falácias — desmontagem de ideias feitas com dados públicos

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Mito: “A electricidade renovável é mais cara”

Em 2025, o custo nivelado de produção solar fotovoltaica a nível global cifra-se em 42 dólares por MWh — mais barato do que qualquer central a gás ou carvão nova. Em Portugal, leilões de solar já atingiram €11,1/MWh, um recorde mundial. A narrativa de que as renováveis encarecem a electricidade inverte a realidade dos números.

EP

Eletrificar Portugal

Observatório da Transição Energética · ~9 min de leitura

Quando as tarifas de electricidade sobem — como sucedeu de forma pronunciada em 2021 e 2022 na Europa —, surge invariavelmente o argumento de que a culpa é das energias renováveis: das subsidiações que distorcem o mercado, da intermitência que exige infra-estruturas caras de backup, da ideologia verde que sacrifica o bolso das famílias em nome de um objectivo climático abstracto.

É uma narrativa reconfortante para quem se opõe à transição energética. Tem, porém, um problema de fundo: é contrariada pelos dados de custo de produção, pelos resultados dos leilões de electricidade renovável em Portugal e pela evolução do mercado grossista europeu.

1. O custo de produção renovável colapsou — e já é o mais baixo

O custo nivelado de energia (LCOE — Levelised Cost of Energy) é a métrica padrão para comparar o custo total de produção de electricidade por diferentes tecnologias ao longo da vida útil de uma central, incluindo investimento inicial, operação e manutenção, e financiamento.

Em 2010, uma central solar fotovoltaica tinha um LCOE de cerca de 378 USD/MWh — quase quatro vezes o custo de uma central a gás. Em 2025, esse valor caiu para 42 USD/MWh, tornando o solar a tecnologia de geração eléctrica mais barata da história. A eólica onshore acompanhou esta trajectória, situando-se nos 45 USD/MWh — também abaixo do gás natural (130 USD/MWh) e do carvão (115 USD/MWh).

Este não é um fenómeno efémero nem dependente de subsídios: é o resultado de décadas de industrialização, economias de escala e aprendizagem tecnológica — um processo análogo ao que aconteceu com os semicondutores, os écrans LCD ou os discos rígidos. E, ao contrário dos combustíveis fósseis, o custo do “combustível” das renováveis é zero.

2. Os leilões portugueses mostram preços sem precedentes

Um leilão de electricidade renovável é, na sua essência, um mecanismo de concurso público: o Estado garante uma tarifa fixa por um número de anos a produtores que se comprometam a construir e operar capacidade renovável. O preço resultante reflecte o custo real que os produtores aceitam para obter um retorno adequado — sem os custos de intermitência ou balanceamento, que são internalizados separadamente.

Portugal realizou leilões de solar fotovoltaico desde 2019. No leilão de Julho de 2020, o preço de adjudicação atingiu €11,1/MWh — o mais baixo registado a nível mundial até então. Mesmo nos leilões posteriores, em que os preços subiram reflectindo os custos de construção pós-pandemia e a crise energética de 2021–22, os valores situaram-se entre €28 e €44/MWh — sistematicamente abaixo do preço médio do mercado grossista OMIE-PT.

Isto significa que, em todos os anos analisados, a electricidade solar adquirida em leilão foi mais barata do que a electricidade comprada no mercado spot. Em 2022, quando o preço de mercado atingiu 167 €/MWh por efeito da crise do gás russo, o solar de leilão custava 43,5 €/MWh — menos de um quarto do preço de mercado. O renovável não foi a causa da crise de preços; foi o amortecedor que permitiu a Portugal suportar com mais resiliência o choque da guerra da Ucrânia.

3. Então por que razão as tarifas dos consumidores subiram?

Se o custo de produção renovável é baixo e os leilões confirmam preços historicamente reduzidos, como se explica que as tarifas de electricidade para os consumidores portugueses tenham subido nos últimos anos?

A resposta é que o preço da electricidade no talão de consumo não é apenas o custo de produção. Inclui também:

Custos de rede (transporte e distribuição). A expansão da rede de transporte e distribuição para acomodar renováveis distribuídas e para modernizar infra-estruturas tem um custo real — mas é um custo de modernização, não um custo das renováveis per se.

Encargos de serviço de interesse económico geral (CIEG). Portugal mantém obrigações contratuais de longo prazo com produtores convencionais (os chamados CAE e CMEC), cujos custos de desvio face ao mercado são socializados pelo tarifário. Estes encargos são, paradoxalmente, um legado dos contratos fósseis anteriores à liberalização — não das renováveis.

Volatilidade do mercado grossista. O preço de referência do mercado MIBEL é indexado ao custo marginal de produção, que em períodos de pouco vento e pouca hídrica é determinado pelas centrais a gás. A crise energética de 2021–2022, causada pela escassez de gás natural, fez disparar estes preços. As renováveis foram a solução, não o problema.

4. Mais renováveis = mais protecção contra a volatilidade dos combustíveis fósseis

Há um argumento económico que vai além do custo de produção: as renováveis têm custo marginal zero (o vento e o sol são gratuitos), o que as torna price-takers naturais que empurram para baixo o preço de mercado sempre que estão disponíveis em quantidade suficiente.

O fenómeno é bem documentado na literatura económica e tem nome: o merit order effect. Em horas de elevada produção solar ou eólica, o preço spot do mercado eléctrico cai — por vezes para zero ou valores negativos. Quanto maior for a penetração renovável, mais frequentes são esses momentos e mais baixa é a média de preço de mercado. A Alemanha, apesar de ter tarifas de retalho mais altas que Portugal (por razões de impostos e encargos herdados), tem preços grossistas que em 2023 foram frequentemente negativos precisamente por excesso de solar e eólica.

A conclusão é anti-intuitiva mas robusta: mais renováveis significam, no médio prazo, menor exposição à volatilidade dos preços do gás e do petróleo — as fontes que causaram as crises de preço de 1973, 1979, 2008 e 2022.

O que é verdade — e onde a preocupação tem fundamento

A crítica não é totalmente sem fundamento em dois aspectos:

Custos de sistema (flexibilidade e armazenamento). Uma rede 100 % renovável requer armazenamento (baterias, hídrica reversível) e interligações para gerir a variabilidade. Estes custos são reais, crescentes e ainda não plenamente reflectidos nos preços actuais. A questão relevante é se esses custos superam a poupança proporcionada pelo custo zero de combustível — e a evidência actual sugere que não superam.

Distribuição dos benefícios. Os consumidores com acesso a autoconsumo solar ou a tarifas dinâmicas beneficiam muito mais do mercado renovável do que os consumidores sem esses meios. A questão distributiva — quem beneficia das renováveis baratas — é legítima e merece políticas activas de democratização do autoconsumo.

Em síntese

A premissa de que a electricidade renovável é “mais cara” inverte a realidade: em 2025, solar e eólica têm os custos de produção mais baixos de qualquer tecnologia de geração eléctrica na história, e os leilões portugueses confirmam preços de adjudicação que, em qualquer dos anos analisados, foram inferiores ao preço de mercado. As subidas de tarifas nos últimos anos tiveram como causa principal a crise do gás natural — e as renováveis foram o mecanismo de amortecimento que evitou que Portugal sofresse ainda mais. Mais renováveis, não menos, é a resposta estrutural à volatilidade dos combustíveis fósseis.

Fontes: IRENA Renewable Power Generation Costs 2023 (LCOE global por tecnologia) · DGEG — Direcção-Geral de Energia e Geologia (resultados dos leilões de solar PT) · REN (dados de mercado PT) · OMIE — Operador del Mercado Ibérico de Energía (preços grossistas MIBEL, média anual PT).