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Mitos e Falácias — desmontagem de ideias feitas com dados públicos

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Mito: “Os incêndios anulam todo o esforço de descarbonização de Portugal”

Um ano mau de incêndios liberta mesmo muito CO₂ — mas não ao ponto de apagar o que já foi cortado noutro lado. E a contabilidade climática nem sequer junta as duas coisas no mesmo balde.

EP

Eletrificar Portugal

Observatório da Transição Energética · ~9 min de leitura

Depois de um Verão de fogos graves, é fácil sentir que nada do resto importa: para quê fechar centrais a carvão, instalar painéis solares ou trocar carros a combustão, se a floresta continua a arder e a libertar carbono todos os anos? É um argumento emocionalmente poderoso. Também é, quando se olha para os números, uma comparação de escalas completamente diferentes.

1. Mesmo o pior ano de fogos é uma fracção pequena do que já foi cortado

Mesmo no ano recorde de 2017 (539 921 hectares ardidos), a estimativa das emissões dos fogos ronda os 10 Mt CO₂eq; num ano típico recente (2023-2024), fica entre 2,6 e 3,8 Mt. Compare-se com o que Portugal já cortou de forma estrutural: as emissões totais caíram de um pico de ~86 Mt CO₂e em 2005 para 53,3 Mt em 2023 — uma queda de 38 %, ano após ano, não um pico isolado.

Só as renováveis evitaram 118 Mt CO₂eq acumulados entre 2015 e 2024, segundo a APREN — mais de dez vezes o pior ano de incêndios de sempre.

2. A contabilidade climática nem sequer junta as duas coisas

Este é o ponto que a maioria das pessoas desconhece: o Regulamento europeu do uso do solo (LULUCF, 2018/841) trata as emissões florestais como uma categoria separada, com metas próprias e — mais importante — uma cláusula específica que permite excluir picos de incêndios e tempestades acima da média histórica. Isto existe precisamente para que um ano mau de fogo não invalide as metas de electricidade, transportes ou indústria.

Os incêndios em Portugal têm ainda causas próprias, sem ligação a combustíveis fósseis: monocultura de eucalipto e pinheiro, abandono rural, e uma propriedade florestal muito fragmentada que dificulta a gestão de combustível. Desde 2017 existe mesmo uma agência dedicada — a AGIF — só para este problema, com um plano nacional próprio (2020-2030), paralelo e independente da política energética.

O que é verdade — e onde a preocupação tem fundamento

Há mesmo uma ligação real entre as duas coisas — só que ao contrário do que o mito assume. O aquecimento global, para o qual as emissões de Portugal (e do mundo) contribuem, está a tornar os verões de fogo mais prováveis e mais intensos. Segundo a World Weather Attribution, as condições que alimentaram os incêndios ibéricos de Agosto de 2025 tornaram-se cerca de 40 vezes mais prováveis devido às alterações climáticas. Ou seja: não descarbonizar agrava o risco de incêndio a longo prazo — o oposto exacto da lógica do mito.

Em síntese

Os incêndios são um problema real e sério, mas de uma ordem de grandeza muito menor do que os cortes já feitos noutros sectores — e são tratados como uma categoria climática separada precisamente por causa desta volatilidade. Descarbonizar e gerir a floresta são dois problemas distintos, com soluções distintas; a única ligação genuína entre eles corre no sentido oposto ao do mito: mais aquecimento global significa mais risco de fogo, não o contrário.

Fontes: APA — “Memorando sobre emissões GEE” (2025/2026) · ICNF — relatórios provisórios de incêndios e série anual 2001-2025 · APREN — Anuário 2024 · AGIF — Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais 2020-2030 · Regulamento (UE) 2018/841 e 2023/839 (LULUCF) · World Weather Attribution — atribuição dos incêndios ibéricos de Agosto de 2025.