Mitos e Falácias — desmontagem de ideias feitas com dados públicos
Mito: “A transição energética destrói mais empregos do que cria”
Não existe um número nacional líquido rigoroso — e seria desonesto fingir que existe. Mas o único caso real e bem documentado que Portugal já viveu mostra perdas pequenas, maioritariamente reabsorvidas, ao lado de uma crítica académica séria sobre como o processo foi gerido.
Eletrificar Portugal
Observatório da Transição Energética · ~10 min de leitura
Este é, de propósito, um dos mitos tratados com menos certeza absoluta nesta secção. Não porque a preocupação seja infundada, mas porque — ao contrário de outros temas, onde há dados de energia sólidos e directos — este exige estatísticas de mercado de trabalho que, em Portugal, simplesmente não existem à escala nacional com o rigor que o site normalmente exige. Em vez de inventar um número, olhamos para o único caso real que Portugal já viveu.
1. O caso real: Sines, Pego e Matosinhos, 2021
O fecho das centrais a carvão de Sines e do Pego, e da refinaria de Matosinhos — todos em 2021 — é o caso mais concreto e bem documentado que Portugal já viveu de perdas de emprego ligadas à transição. A escala é muito mais pequena do que a retórica costuma sugerir: 107 trabalhadores directos em Sines, 83 no Pego, cerca de 150 despedimentos em Matosinhos — um total na ordem das poucas centenas, não milhares, numa população empregada de cerca de 5 milhões de pessoas.
Quatro anos depois, os números de acompanhamento são positivos: dos antigos trabalhadores de Sines apoiados pelo Fundo Europeu de Transição Justa, restavam apenas “cinco a seis” ainda desempregados em finais de 2025, e mais de 3 500 acções de formação foram financiadas. O terreno do Pego está a ser reconvertido num cluster híbrido solar-eólico-baterias-hidrogénio de €600 milhões, com preferência de contratação para os antigos trabalhadores da central.
2. Os empregos criados: mais de 88 mil no setor renovável
Do lado dos ganhos, a APREN estima mais de 88 mil empregos no setor renovável português em 2024. Mesmo comparando apenas contra os ~340 postos afectados pelos três encerramentos, a diferença de escala é evidente — ainda que esta comparação seja ilustrativa, não um cálculo líquido rigoroso, porque os empregos ganhos e perdidos não são directamente comparáveis (sectores, competências e regiões diferentes).
Ao nível global, a IEA estima que uma trajectória de net-zero poderia significar cerca de 14 milhões de novos empregos em energia limpa contra 5 milhões perdidos em combustíveis fósseis até 2030 — um número global, não específico de Portugal, mas consistente com a direcção sugerida pelo caso português.
O que é verdade — e onde a preocupação tem fundamento
O processo não foi gerido sem falhas — e uma crítica académica séria diz-nos isso. Um artigo científico recente (Ricardo Moreira, revista Energy Policy, Setembro de 2025), baseado em análise do discurso de governo, sindicatos, empresas e municípios, documenta um período real de “vale da morte” — desemprego e falta de diálogo social e mecanismos de apoio atempados — antes da recuperação, e recomenda reformar a segurança social para transições futuras. Citar esta crítica ao lado dos números positivos de reabsorção é mais honesto do que apresentar apenas um lado.
Há também um sinal de falta de mão-de-obra qualificada no sentido oposto: reportagens recentes apontam escassez de electricistas qualificados como risco para atrasar projectos solares e de carregamento de VE em Portugal — sugerindo que o problema real pode ser de formação insuficiente para o setor em crescimento, não de destruição líquida de emprego.
Em síntese
Não há um número nacional líquido rigoroso para confirmar ou negar este mito com precisão — e este artigo não finge que há. O único caso real e bem documentado (Sines, Pego, Matosinhos) mostra perdas pequenas, maioritariamente reabsorvidas em quatro anos, ao lado de mais de 88 mil empregos no setor renovável. Mas uma crítica académica séria e recente documenta falhas reais de gestão do processo — reconhecê-las não enfraquece o argumento, torna-o mais credível.
Fontes: Observador, Correio da Manhã — situação dos trabalhadores de Sines (2020) · ECO Sapo — Mecanismo de Compensação para uma Transição Justa, resultados Nov 2025 · O Mirante, Público, ECO, Observador — encerramento do Pego e reconversão (2021-22) · Jornal de Negócios, Observador, ECO — encerramento da refinaria de Matosinhos (2021) · Comissão Europeia — Fundo de Transição Justa para Portugal (Dez 2022) · Ricardo Moreira, “A tale of two (un)Just Transitions,” Energy Policy 204 (2025) · APREN, Anuário 2024 · IEA/IRENA — estimativas globais de emprego na transição energética.