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Mitos e Falácias — desmontagem de ideias feitas com dados públicos

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Mito: “As emissões de Portugal estão a aumentar — a transição não está a funcionar”

O número é real. A explicação mais óbvia — um ano seco — está errada. A explicação real é um apagão a forçar gás como base de segurança, e um setor que continua a bater as suas metas com folga: os transportes.

EP

Eletrificar Portugal

Observatório da Transição Energética · ~10 min de leitura

Este é um dos mitos mais difíceis de tratar com honestidade — porque, ao contrário de outros, a premissa é verdadeira: as emissões totais de Portugal subiram de 51,5 Mt CO₂e em 2024 para uma estimativa provisória de 54,6 Mt em 2025. A pergunta não é se o número é real — é o que ele realmente significa.

1. Não foi um ano seco — foi o apagão

A explicação mais intuitiva — “um ano seco obrigou a mais gás” — está errada. 2025 foi, na verdade, um bom ano hídrico, com um índice de produtividade de 1,32 (acima da média de 1,0), melhor até do que 2024. A causa real, segundo a própria APREN, foi o apagão de 28 de Abril de 2025: para garantir segurança de abastecimento independente de importações, o operador do sistema obrigou centrais a ciclo combinado a gás a funcionar como base permanente, e a produção a gás quase quadruplicou entre Maio e Agosto.

A isto juntou-se um ano de incêndios particularmente mau (contribuindo para a subida do LULUCF) e um consumo eléctrico a crescer mais depressa (+3,2 %) do que a nova capacidade renovável, que estagnou por lentidão de licenciamento — não por qualquer recuo de política. A quota renovável caiu de 71 % (2024) para 68 % (2025), a primeira descida desde 2022, apesar de a produção renovável absoluta ter batido recorde (37 TWh).

2. A tendência estrutural de 20 anos continua inequívoca

Um ano — ou mesmo dois — de subida não apaga duas décadas de queda estrutural. As emissões totais de Portugal caíram 38 % entre o pico de 2005 (~86 Mt CO₂e) e 2023 (53,3 Mt), com o sector eléctrico e a indústria a bater as suas metas sectoriais com larga folga: serviços −62 % (meta −70 %), residencial −42 % (já acima da meta de −35 %).

E o reconhecimento externo confirma isto: Portugal subiu para 12.º lugar (efectivamente 9.º) no Índice de Desempenho Climático 2026, entre os “altos desempenhos” mundiais, segundo o Germanwatch/NewClimate Institute.

O que é verdade — e onde a preocupação tem fundamento

Os transportes são mesmo o ponto fraco real. Ao contrário da electricidade, este setor está genuinamente parado: apenas −9 % desde 2005 contra uma meta de −40 %, com a tendência de queda invertida desde 2013 e já acima dos níveis pré-pandemia. O próprio Índice de Desempenho Climático 2026 aponta os transportes como o problema explícito de Portugal. Se há um setor onde a transição não está a resultar, é este — não a electricidade.

Em síntese

A subida de 2025 é real, mas o mecanismo popular está errado: não foi seca, foi o apagão de Abril a forçar gás como base de segurança, mais um ano mau de incêndios e um consumo a crescer mais depressa do que a nova capacidade renovável. A tendência estrutural de 20 anos continua inequívoca, e o sector eléctrico continua a bater metas. A crítica que sobrevive ao escrutínio não é “a transição não funciona” — é “os transportes ficaram para trás”.

Fontes: APA — “Memorando sobre emissões GEE 2025” · APREN — “Abrandamento das Renováveis em 2025 afasta Portugal das Metas do PNEC” (6 Jan 2026) · REN — “Consumo de energia eléctrica atinge valor mais elevado de sempre em 2025” · Zero/Público — estimativa de +1 milhão de toneladas de CO₂ em 2025 · Climate Change Performance Index 2026 (Germanwatch/NewClimate/CAN) · Público — “Transporte rodoviário: emissões subiram 6,2%” (2023).