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Mitos e Falácias — desmontagem de ideias feitas com dados públicos

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Mito: “Portugal depende da Espanha para não ter apagões”

O apagão de 28 de Abril de 2025 parece confirmar o mito — mas inverte-o: Portugal repôs a rede sozinho, mais depressa do que Espanha, que teve de recorrer às interligações com França e Marrocos. E a dependência do dia-a-dia, real, é frequentemente exagerada.

EP

Eletrificar Portugal

Observatório da Transição Energética · ~10 min de leitura

Portugal e Espanha partilham mercado (o MIBEL), partilham rede síncrona e, cada vez mais, partilham excedentes de sol e vento. Para muitos, isso soa a vulnerabilidade: se algo correr mal em Espanha, corre mal em Portugal. O apagão de 28 de Abril de 2025 é normalmente citado como prova disso. Mas olhar com atenção ao que aconteceu nesse dia — e ao que os números de comércio de electricidade realmente mostram — conta uma história bem mais equilibrada.

1. Na única crise real, Portugal recuperou-se sozinho

A propagação do apagão para Portugal foi física, não comercial: os dois países partilham a mesma rede síncrona europeia, pelo que um colapso de tensão suficientemente grande em Espanha se propaga em segundos, independentemente de quanto — ou quão pouco — Portugal estivesse a importar nesse momento. Não é uma questão de “dependência” comercial; é física de rede eléctrica partilhada, a mesma que liga Espanha a França.

O que aconteceu a seguir é que muda a narrativa. A REN repôs a Rede Nacional de Transporte sozinha, usando centrais próprias com capacidade de arranque autónomo — Castelo de Bode (hídrica) e Tapada do Outeiro (ciclo combinado a gás) —, concluindo a reposição pelas 23h20 do próprio dia. Espanha só recuperou por completo cerca de quatro horas mais tarde, e fê-lo com ajuda das interligações com França e Marrocos.

Na crise real, portanto, foi Espanha quem dependeu de interligações eléctricas para se recompor — Portugal não precisou de electricidade espanhola. É o oposto exacto da narrativa que o próprio apagão supostamente confirmaria.

2. A dependência do dia-a-dia é real — mas menor, e nos dois sentidos

Isto não significa que Portugal não importe electricidade de Espanha — importa, e de forma significativa. Segundo dados da REN e da DGEG, Portugal importou um saldo líquido equivalente a cerca de 20 % do consumo em 2023 e em 2024 — cerca de 10 200 e 10 500 GWh respectivamente, num custo acumulado de mais de 3 200 milhões de euros só entre 2021 e 2023.

Mas esse número — real — é frequentemente inflacionado para “30 %” nas redes sociais, confundindo uma hora de pico de importação (que chegou aos 33 % precisamente no dia do apagão) com a média anual. Dois fact-checks independentes, do Público e do Polígrafo, já desmentiram essa versão inflacionada usando os mesmos dados da REN e da DGEG citados aqui.

E o saldo inverte-se com regularidade: Portugal foi exportador líquido entre 2016 e 2018, e voltou a sê-lo em Agosto de 2026 — um mês de recorde de produção solar (3 850 MW de pico) em que Portugal exportou o equivalente a cerca de um terço do seu consumo mensal.

3. O défice real está noutro sítio: a ligação a França

A interligação Portugal–Espanha foi reforçada em Julho de 2026, com uma nova linha de 400 kV que elevou a capacidade de intercâmbio para 4 200 MW (Espanha→Portugal) e 3 500 MW (Portugal→Espanha) — um rácio de interligação estimado em cerca de 18 % da capacidade instalada portuguesa, já acima da meta europeia de 15 % para 2030.

O problema estrutural que o apagão realmente expôs não é o excesso de ligação a Espanha — é a fraca ligação da Península Ibérica ao resto da Europa através de França, estimada em apenas 2,8 a 3 %. Portugal e Espanha pediram, em conjunto, mais financiamento europeu precisamente para reforçar essa ligação — o oposto de “menos dependência” do vizinho ibérico.

O que é verdade — e onde a preocupação tem fundamento

Portugal importa mesmo uma parcela significativa da sua electricidade. Não é um número desprezável — 20 % do consumo em anos recentes é real, e representa uma factura considerável (mais de mil milhões de euros só em 2024). A crítica legítima aqui não é sobre segurança de abastecimento, mas sobre custo: quanto mais Portugal depender de importação em anos secos ou de baixa produção solar, mais exposto fica a preços de mercado fora do seu controlo.

Em síntese

Portugal partilha uma rede síncrona com Espanha, e isso significa que um colapso espanhol suficientemente grande se propaga cá — física, não dependência. Mas na única crise real que Portugal já viveu com essa rede, foi Portugal que se recompôs sozinho, e Espanha que precisou de ajuda externa. A importação de electricidade é real, ronda os 20 % do consumo em anos recentes, mas inverte-se regularmente a favor de Portugal — e o défice de interligação que realmente importa é com França, não com Espanha.

Fontes: ENTSO-E — Expert Panel Final/Factual Reports (Out 2025 / Mar 2026) · ERSE — Investigação ao Apagão Ibérico de 28 de Abril de 2025 (12 Mai 2025) · REN — Dados Técnicos 2024 · Jornal de Negócios, CNN Portugal — custo das importações · Polígrafo, Público — fact-checks sobre a percentagem de importação · Comissão Europeia — meta de interligação eléctrica 15% até 2030.