Mitos e Falácias — desmontagem de ideias feitas com dados públicos
Mito: “O excesso de solar é desperdiçado porque não há baterias”
Portugal tem, de facto, muito poucas baterias. Mas o desperdício que o mito pressupõe não aparece nos dados: o corte de renovável é, hoje, pequeno — porque Portugal já tem outro amortecedor, bem maior, chamado bombagem hídrica.
Eletrificar Portugal
Observatório da Transição Energética · ~8 min de leitura
À medida que a capacidade solar em Portugal cresce a olhos vistos, é fácil imaginar dias de Verão em que há tanta electricidade gratuita ao meio-dia que parte dela tem de ser simplesmente desperdiçada — cortada, na linguagem técnica — por falta de baterias para a guardar. É uma preocupação razoável à primeira vista. Só que os números que existem sobre corte real em Portugal não a confirmam.
1. O corte real em Portugal é pequeno — e é raro, segundo a própria REN
A REN não publica uma série contínua de corte técnico de renovável — uma lacuna que vale a pena assinalar em vez de esconder. A melhor estimativa disponível, de uma análise independente sobre o mercado ibérico, situa o corte técnico em Portugal em cerca de 213 GWh em 2023 — apenas 0,4 % da produção total, descrevendo o corte de eólica e solar nesse ano como “praticamente zero.” Um relatório do setor para 2025 encontra episódios limitados, na ordem das 14 horas ao nível da transmissão — um sinal precoce, não uma crise.
Comparado internacionalmente, Portugal está no extremo baixo: a Alemanha cortou cerca de 3,5 % da sua produção renovável em 2024 (9,3 TWh, com 554 milhões de euros pagos em compensação), e Espanha está a subir rapidamente — de perto de zero para cerca de 9 TWh em 2025.
2. A razão não é falta de baterias — é bombagem hídrica
Portugal tem, de facto, muito poucas baterias: cerca de 120 MW instalados em 2026 — a subir de apenas 13 MW no final de 2024 —, longe da meta de 1,5 GW do PNEC 2030. Se a explicação da falta de baterias fosse suficiente, seria de esperar ver muito mais corte real do que os 0,4 % documentados.
A razão é que Portugal já tem outro amortecedor de excedentes, bem maior e muito mais antigo: cerca de 3,6 GW de capacidade de bombagem hídrica — mais do dobro de toda a meta de baterias para 2030 —, além de uma interligação reforçada com Espanha (4 200 MW) para escoar produção excedentária quando necessário.
As baterias que estão a ser construídas — incluindo o concurso de 750 MVA lançado em 2026 — não resolvem, portanto, um problema actual de desperdício maciço. Estão a preparar a rede para um crescimento solar futuro que, esse sim, é genuíno e rápido.
O que é verdade — e onde a preocupação tem fundamento
O risco está a crescer, e a própria REN avisa disso. Numa entrevista de Abril de 2024, um administrador da REN admitiu que cortar renovável por excesso de produção é hoje raro em Portugal, mas “vai acontecer mais vezes no futuro” à medida que a capacidade instalada continua a crescer (+20 % de produção só em 2025). Um relatório da Ember de 2026 coloca mesmo Portugal entre os oito países da UE onde a capacidade de rede disponível não chega para absorver 10 % da fila de projectos renováveis à espera de ligação — um constrangimento de rede genuíno, distinto de falta de baterias.
Em síntese
O desperdício maciço que o mito pressupõe não existe hoje — o corte real documentado em Portugal é de cerca de 0,4 % da produção, um dos valores mais baixos da Europa. Isso não se deve a excesso de baterias, mas à bombagem hídrica já instalada, mais do dobro de toda a meta de baterias para 2030. O risco é real e está a crescer à medida que o solar se expande — e é isso, e não um desperdício actual, que as novas baterias estão a preparar-se para resolver.
Fontes: Synertics — Curtailments in Spain and Portugal · Solar Data Atlas — Solar & Renewable Curtailment Europe by Country · Bundesnetzagentur via pv-magazine (Alemanha) · Observador — corte de renovável em Portugal (Abr 2024) · Ember — Crossed Wires (Abr 2026) · Governo de Portugal — concurso de baterias 750 MVA e meta PNEC 2030.