Mitos e Falácias — desmontagem de ideias feitas com dados públicos
Mito: “Portugal não tem capacidade de carga suficiente para VEs”
Os dados públicos da EAFO e da MOBI.E contam uma história bem diferente da ideia feita: a rede de carregadores cresceu ao mesmo ritmo — ou mais depressa — do que a frota eléctrica, e continua, mês após mês, abaixo da referência europeia de utilização.
Eletrificar Portugal
Observatório da Transição Energética · ~7 min de leitura
Com a frota eléctrica a crescer rapidamente, ouve-se cada vez mais a ideia de que Portugal “não tem rede de carregadores” para sustentar a transição — que o país está a vender carros eléctricos mais depressa do que consegue instalar tomadas para os carregar, e que isso vai travar (ou já está a travar) a adopção em massa.
É uma preocupação intuitiva — quase todos conhecemos alguém que adiou a compra de um VE “para esperar que a rede amadureça”. Mas é também uma afirmação verificável. E os dados públicos da EAFO (European Alternative Fuels Observatory) e da MOBI.E contam uma história bastante diferente.
1. A rede de carregadores cresceu tão depressa como a frota — ou mais
Entre 2020 e 2026, o número de pontos de carregamento público em Portugal passou de 2.353 para 17.709 — um crescimento de 7,5×. No mesmo período, a frota de veículos eléctricos (BEV + PHEV) cresceu de cerca de 60 mil para mais de 420 mil unidades — um factor de 7,0×.
Posto de outra forma: o rácio de carregadores por cada 1.000 VE em circulação manteve-se estável, oscilando entre 35 e 46 ao longo de seis anos consecutivos — sem qualquer tendência de degradação. Se a infra-estrutura estivesse a ficar para trás da procura, este rácio estaria a cair ano após ano. Não está.
2. O carregamento rápido (DC) cresceu ainda mais depressa
A preocupação mais comum não é tanto “há tomadas suficientes para carregar de um dia para o outro em casa”, mas sim “há carregadores rápidos suficientes para viagens longas e para quem não tem garagem”. Aqui os dados são, se possível, ainda mais favoráveis ao desmentido: os carregadores DC (rápidos e ultra-rápidos) passaram de 305 unidades em 2020 para quase 5.800 em 2026 — um crescimento de 19×, mais que o dobro do ritmo da rede AC (lenta/doméstica), que cresceu cerca de 6×.
Ou seja: o segmento da rede que mais directamente resolve a “ansiedade de autonomia” — o carregamento rápido em auto-estradas e pólos urbanos — é precisamente aquele em que o investimento tem sido mais agressivo.
3. A rede instalada está, na verdade, subutilizada
Este é talvez o ponto mais contra-intuitivo — e o mais decisivo. Se a rede de carregamento estivesse verdadeiramente sob pressão, esperaríamos ver taxas de utilização elevadas e a subir (muitos VE a competir por poucos carregadores, filas, tempos de espera). O benchmark europeu de uma rede “saudável” e bem dimensionada ronda 1,0 sessões por carregador por dia.
Os dados da MOBI.E mostram que Portugal está, mês após mês, abaixo desse valor — em Abril de 2025, por exemplo, a taxa rondava as 0,7 sessões/carregador/dia, depois de ter estado nos 0,3 em Janeiro de 2022. A tendência é de subida (sinal de que a adopção está, justamente, a acelerar) — mas a rede continua a ser instalada à frente da procura, não atrás dela. Isto é o oposto exacto do que o mito pressupõe.
O que é verdade — e onde a preocupação tem fundamento
Um mito não é o oposto exacto da verdade; é normalmente uma generalização excessiva de um problema real e localizado. E aqui há, de facto, dois pontos que merecem mais atenção:
Distribuição geográfica desigual. Os números agregados escondem assimetrias entre o litoral urbano e o interior, onde a densidade de carregadores rápidos é significativamente menor — e onde a ausência de garagem torna o carregamento doméstico menos acessível.
Corredores para frotas pesadas. A electrificação de camiões e autocarros vai exigir uma geração diferente de infra-estrutura: megacarregadores de alta potência em eixos como Lisboa-Porto e acessos portuários, que precisam de planeamento dedicado — e de processos de ligação à rede mais céleres, um problema que este Observatório já documentou noutros contextos.
Estes são problemas reais, de planeamento fino e de equidade territorial — não de “falta de capacidade” no sentido em que o mito é normalmente invocado.
Em síntese
Os dados públicos não sustentam a ideia de que Portugal “não tem rede” para os veículos eléctricos que já circulam ou que se espera que circulem a curto prazo. Pelo contrário: a rede cresceu ao mesmo ritmo — ou mais depressa — do que a frota, o segmento de carregamento rápido expandiu-se ainda mais agressivamente, e as taxas de utilização mostram uma rede com margem, não em ruptura. O verdadeiro desafio não é “ter capacidade” — é distribui-la com equidade territorial e prepará-la, com antecedência, para a electrificação dos transportes pesados.
Fontes: EAFO — European Alternative Fuels Observatory (pontos de carregamento e frota, CC BY 4.0) · MOBI.E — Rede Nacional de Carregamento (sessões e taxas de utilização; dados estimados a partir de relatórios anuais 2022–2024, ver nota metodológica).