A falácia da energia primária
Portugal visto pela lente certa
Quando se mede o que as pessoas realmente usam em vez do que se extrai, a transição energética de Portugal parece muito diferente — mais avançada, e com dois alvos claros.
Pedro Martins Barata
Investigador de política climática · Outubro 2026 · 7 min de leitura
As contas da energia começam normalmente pelo que extraímos e importamos — energia primária. Percebe-se: desde sempre a segurança de abastecimento foi uma preocupação, sobretudo para países altamente dependentes. Mas comece-se pelo que as pessoas realmente usam — energia útil ou exergia — e a transição de Portugal parece muito diferente.
Durante décadas, a forma habitual de descrever um sistema energético foi começar pela oferta: barris de petróleo, metros cúbicos de gás, toneladas de carvão. Somam-se, chama-se energia primária, e acompanha-se a parte que é renovável. É uma forma perfeitamente válida de gerir uma refinaria ou um contrato de gás. É uma forma enganadora de perceber uma transição energética.
A falácia da energia primária
A energia primária trata qualquer unidade de energia como igual a qualquer outra. Mas uma unidade de carvão queimada numa central entrega menos de 30% da sua energia sob a forma de eletricidade. Um motor a gasolina converte cerca de um quarto do combustível em movimento. Um motor elétrico converte mais de 90% da eletricidade que recebe em movimento, e uma bomba de calor entrega três a quatro unidades de calor por cada unidade de eletricidade.
Contar por energia primária esconde tudo isto — e por isso o sistema fóssil parece maior, e o elétrico mais pequeno, do que aquilo que cada um faz por nós.
Em fevereiro de 2026, a Ember publicou uma nova forma de desenhar o sistema energético que corrige este problema: começa pela energia útil, o movimento, o calor e a luz que as pessoas realmente querem, e recua pela energia final até às fontes. Refizemos essa análise para Portugal, com o balanço energético nacional do Eurostat, de 2000 a 2024.
O que mostram os dados
- Os combustíveis fósseis forneceram 84% da energia primária de Portugal em 2000 e 56% em 2024.
- Medidos em energia útil, o peso dos fósseis desceu de 74% para 43%.
- A energia primária desceu de 279 TWh para 226 TWh. A energia útil foi cerca de 103 TWh nos dois anos. Obtemos hoje os mesmos serviços com menos 53 TWh de energia primária.
- Em 2024, a eletricidade forneceu 53% do trabalho útil (motores, eletrodomésticos, iluminação, ferrovia, veículos elétricos).
Gráfico 1
Quota fóssil: energia primária vs. energia útil
Fonte: Eurostat NRG_BAL_C; eficiências de conversão Ember (2026). Nota: em 2024, mais de metade da energia útil de Portugal já é limpa.
Gráfico 2
Mais serviços com menos energia — evolução em TWh
A energia útil manteve-se estável (~103 TWh) enquanto a energia primária caiu 53 TWh. Obtemos os mesmos serviços com muito menos combustível.
Os transportes: onde os fósseis dominam
O petróleo é 39% da energia primária de Portugal porque é usado onde as perdas de conversão são maiores. Os transportes consomem cerca de 72 TWh de combustível e transformam cerca de 18 em movimento. Três quartos da energia desaparecem como calor no escape e no motor.
Gráfico 3
Transportes: motor de combustão vs. veículo elétrico — mesma escala de energia
Fonte: Ember, eficiências globais de conversão por tecnologia. VE calculado a 90% de eficiência (motor + bateria). A mesma lógica aplica-se ao aquecimento: uma bomba de calor entrega 3–4× mais calor por TWh do que uma caldeira a gás.
O que isto não diz
É fácil exagerar, por isso ficam os limites. Mesmo na lente mais favorável, 43% da energia útil de Portugal ainda é fóssil. A maior parte é petróleo nos transportes, e gás e petróleo para calor em casas e na indústria — precisamente os dois sítios onde a eletrificação tem mais para fazer.
A energia primária continua a importar. As emissões vêm do combustível que é queimado, e as importações e a segurança energética dependem dos barris e dos metros cúbicos que compramos. A visão da energia útil é uma segunda lente, não uma substituta.
Os números assentam em pressupostos: o Eurostat dá a energia final por setor e combustível, mas não as eficiências de conversão portuguesas, por isso foram usadas as médias globais da Ember. Nas alternativas testadas, o peso dos fósseis na energia útil ficou entre 41% e 45%.
Porquê mudar a lente
Se a pergunta for "que parte da nossa energia é renovável?", a energia primária dá uma resposta pessimista. Se a pergunta for "que parte do que usamos ainda é fóssil, e onde?", a energia útil dá uma resposta mais precisa: a descarbonização está mais avançada do que os números de manchete sugerem, e a batalha que falta concentra-se em dois sítios — os veículos e o aquecimento. Em ambos, a opção elétrica ganha pela física, e não só pelo custo.
Muda também a política: metas de eficiência definidas em energia primária podem premiar equipamento fóssil ligeiramente mais eficiente em vez da eletrificação. Metas definidas em serviços energéticos entregues e em emissões evitam essa armadilha.
Dados e metodologia
Eurostat NRG_BAL_C e NRG_D_HHQ · Ember, "Reframing Energy for the Age of Electricity" (17 fev. 2026) · Fraunhofer ISI, aquecimento e arrefecimento (base 2012).
Leitura adicional
Jan Rosenow, "Have we been duped by the primary energy fallacy?", Medium, 21 nov. 2024 — medium.com/@jan.rosenow
Pedro Martins Barata
Investigador de política climática e de mercados de carbono. Trabalha na intersecção entre política energética, regulação de emissões e descarbonização industrial.